No Brasil, muitas vezes não nascemos negras, nos tornamos negras. Essa é a minha história, que talvez ressoe com tantas outras.

    Na infância, nos anos 90, eu convivia com meninas brancas e não me sentia diferente delas. Meu sonho era ser uma das paquitas, estar perto da Xuxa todos os dias. Lembro de adultos dizendo que eu não poderia ser paquita, mas, na minha visão de criança, não entendia o porquê. Não via diferença entre mim e as meninas brancas e loiras das novelas, revistas e filmes. Só existia aquele estereótipo.

    Estudei em escola particular e, na adolescência, o cenário era claro: colegas com sobrenomes alemães e italianos, meninas loiras de olhos claros. Muitas vezes me sentia deslocada, como se não pertencesse àquele mundo, nem às baladas que frequentavam. Enquanto elas curtiam música eletrônica, eu preferia um bom forró universitário.

    Na vida adulta, ainda não sabia onde me encaixava, especialmente quando pediam para definir minha cor de pele. Até que, um dia, em uma praça de alimentação na zona sul de São Paulo, uma mulher branca olhou para mim e minha amiga negra com repulsa. O racismo dela foi explícito, cruel, e suas palavras racistas me atingiram como nunca antes. Sempre fui vista como "morena", não é? Mas ali, pela primeira vez, me disseram que eu era uma mulher preta, de forma dura e dolorosa. Chorei, sentindo vergonha por algo que não deveria ser motivo de vergonha: minha cor.

    Com o tempo, após vivenciar racismo em suas formas sutis e escancaradas, percebi que a tão falada democracia racial não existe. Ser vista como "morena" nunca foi um privilégio, mas uma confusão. Eu não era branca o suficiente para ser a escolhida pelo garotinho da escola, mas também não me deixavam ser negra, porque ser negra era considerado feio.

    Foi apenas na graduação em psicologia que mergulhei na minha identidade e me reconheci como mulher negra. Apesar das dores e do cansaço que essa existência pode trazer, tenho muito orgulho de ser quem sou.